O que é o poder de abstração combinado com audácia!
Muito se fala em simplificar a propaganda, em traçar uma ponte mais direta com o público consumidor, viver intensamente a era do varejo. Eu, diferente dessa corrente pulsante, penso que a propaganda, antes de passar a mensagem deve preocupar em atrair o olhar do público. Tarefa árdua atualmente, onde existe excesso de informação e signos. Eis que a Coca, apela para o total poder de abstração, tempera com ousadia, e lança um case sensacional. Duas línguas e um olho discutindo, porque enquanto um enxerga uma coca diferente, outro afirma a igualdade do sabor. VT maravilhoso e sombrio, parecendo um filme do Tim Burton. Aqui no Brasil recebeu vozes de Miguel Falabela (olho), Chorão e Evandro Mesquita.
O que faz lembrar que essa forma de abstrair o conceito do produto já deu muito certo, em outras épocas, em outros segmentos. Para não dizer muito, basta ver a propaganda da Honda que não aparece moto em nenhum momento.
Uma das questões mais interessantes surgidas do debate entre a fotografia e a pintura tradicional no século XIX foi sobre a função da tela. Até então, os pintores tentavam aproximar o tema com a ilusão perspectiva da realidade. Ou seja, “fingiam” um ambiente tridimensional em uma tela bidimensional. Entretanto, a fotografia veio desafiar este propósito, pois a imagem retratada poderia cumprir essa função com muito menos trabalho e talento que a mão do artista. Assim, no final do século e no início do seguinte, mestres como Cézanne e Picasso passaram a se utilizar de características do meio (tinta, tela, objetos, etc), abandonando a tentativa de iludir, localizando a pintura com suas próprias características. Portanto, encontrando uma função para tal arte que não fosse possibilitada por outra qualquer. Ou seja, construindo uma narrativa própria e original, consolidando-se assim, como arte.
O cinema também é um gênero que sofre com a falta de novas narrativas que possam enquadrá-lo verdadeiramente como a “sétima arte”. No plano ao qual estamos globalmente acostumados, as ações em um filme estão encadeadas em uma sucessão de causas e efeitos, quadros e cortes repetitivos, além de plots e roteiros muito próximos. Muitos espectadores têm impressão de ver as mesmas cenas em películas de títulos diferentes. É aquela velha história de se conhecer o final.
Desde o início de sua obra cinematográfica, o diretor Gus Van Sant vem tentando descobrir novas formas de retratar a realidade sem que seja forçado a se entregar a uma narrativa pronta. Seus filmes parecem possuir uma linha que acompanha todas as produções. Geralmente seus temas giram em torno do universo adolescente/jovem, mas a narrativa destas histórias variam e são inovadas a cada take e época. De tão diferente que é, Van Sant enfrentou períodos de preconceito, principalmente, depois de obras como “Até as vaqueiras choram” e ovação com Drusgtore Cowboy.
A discórdia em relação aos seus filmes parte mais da parte daqueles que não se esforçam o mínimo para entender que o cinema está muito além do blockbuster e pode sim, ter novas narrativas. E assim foi em “Elephant” onde retrata de forma original o massacre de Columbine, com cenas indo e vindo, perseguindo de forma paranóica o personagem, em quadros desfocados e estranhos. Da mesma forma, o diretor criou um clima tenso e confuso para marcar “Last Day”, os últimos instantes da vida de Kurt Cobain. Além da narrativa, Van Sant também se torna original na maneira como busca o elenco dos filmes. A nova película, que estréia esse verão no Brasil e se chama “Paranoid Park” conta com a participação de atores completamente desconhecidos e garimpados no My Space, algo pra lá de surpreendente ainda mais para um mercado marcado pela falta de espaço para anônimos e cheio de vícios.
E viva o cinema como arte!
Segue o trailler do novo filme de Gus Van Sant - Paranoid Park
Vivemos em uma época estranha e cheia de mistérios na indústria cultural. Tenho certeza absoluta de que músicas boas estão surgindo a cada segundo nesse mundo, mas são tantas que prefiro ouvir as do passado. Assim, a última melhor banda da história para meu limitado gosto se chama Portishead.
Originários de Bristol (Inglaterra), os integrantes da banda de TriHop se conheceram em uma cena que lembra muito o filme também inglês, “Ou tudo, ou nada”. Beth Gibbons (vocal) e o produtor Geoff Barrow estavam na fila de desempregados e ali mesmo, iniciaram o grupo que também conta com a participação do guitarrista Adrian Utley.
As canções são de um refino surpreendente, aliando bom gosto eletrônico, jazz e samplers de hip hop. Apesar de todo o refino e a boa audiência, o grupo formado em 1991 lançou apenas três discos e o álbum Live at Roseland, o único “ao vivo”, tornou-se um clássico para quem tem uma ponta de melancolia na alma e sente-se bem com a mistura entre acordes clássicos e pós-modernos.
Abaixo confira um pequeno pedaço de uma das mais espetaculares exibições musicais do final do século passado. A música é Sour Times, uma das mais famosas do grupo e inclusive, foi trilha sonora do filme Beleza Roubada, de Roberto Bertulucci.
É demais… a teledramaturgia nos proporcionou uma cena antológica na última semana, com a invasão da favela da Portelinha, na novela Duas Caras da Rede Globo. A estrela é Juvenal Antena (Antônio Fagundes), acuado pelos malfeitores de plantão, capitaneados pelo sempre bem-vindo Paulo César Pereio na pele de Lobato. Tudo bem que os núcleos de novelas da emissora não se preocupem muito com a verossimilhança das coisas, mas sapecar o Juvenal com uma BAZUCA nas mãos, enquanto os meliantes dialogam entre si sobre as qualidades do trabuco é demais. Sensacional, uma pérola do trash nacional. Para completar, todos os personagens da novela resolveram ir para a porta da favela. Só faltou o elenco de Sete Pecados e do Casseta… pensando bem, quem precisa dos humoristas?